Antes de chegarem aos viveiros da SPEA Açores, muitas das plantas que produzimos começam a sua viagem bem longe daqui. É no campo, em contacto direto com a natureza, que damos o primeiro passo: a recolha de sementes. A produção de plantas endémicas no viveiro não começa nas instalações, mas sim no campo. Para conseguir produzir novas plantas, a equipa da SPEA desloca-se a zonas da Serra da Tronqueira onde encontramos exemplares adultos, em bom estado de saúde e, claro, com frutos.
A recolha anual de sementes começa cedo, com a nossa espécie nativa mais precoce: o tamujo ou Myrsine retusa. Este arbusto é dióico, ou seja, apresenta indivíduos masculinos e femininos, que se distinguem entre si pela cor das flores: roxas no primeiro caso e brancas no segundo. Se as flores femininas forem polinizadas por exemplares masculinos em floração, os frutos desenvolvem-se apenas nos indivíduos femininos.
O momento de recolha é importante: procuramos frutos bem maduros, já com coloração roxa, o que aumenta a probabilidade de obter sementes viáveis. Não sendo muito abundantes, procuramos cuidadosamente entre a vegetação para recolher as sementes — embora não todas —, deixando sempre algumas em cada indivíduo para favorecer a regeneração natural.
Após a recolha, procedemos à extração da semente dos frutos. Os frutos de tamujo são carnosos, globosos e de pequeno tamanho (4–5 mm); inicialmente de cor branco-creme, tornam-se roxos quando amadurecem. A remoção da polpa é um passo importante, pois ajuda a evitar o desenvolvimento de fungos e pode melhorar a germinação.
Sementes de tamujo.@Lucia Hevia
Já no laboratório, removemos a polpa para ficarmos com a única semente que cada fruto contém. Posteriormente, deixamo-la secar e, ao fim de algumas semanas, armazenamo-la, registando sempre a quantidade e a data de recolha.
Tratamento de sementes .@Lucia Hevia
Para além do seu interesse na produção em viveiro, os frutos de tamujo desempenham também um papel importante no ecossistema, em especial a floresta Laurissilva, servindo de alimento a diversas aves, que contribuem para a dispersão natural das sementes. Por isso, uma recolha responsável é fundamental para garantir a conservação da espécie e o equilíbrio destes habitats.



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