quinta-feira, 2 de abril de 2026

Trabalho da SPEA Açores inspira especialistas europeus em conservação

O trabalho da SPEA nos Açores tem atraído atenção internacional como exemplo a seguir em soluções de conservação e restauro ecológico. Em março, a associação recebeu a reunião anual presencial do projeto europeu SpongeBoost, reunindo especialistas de diversos países para uma semana de workshops e visitas de campo, onde puderam conhecer de perto as práticas inovadoras da SPEA.



No Planalto dos Graminhais, os especialistas aprenderam como a SPEA implementou medidas para reforçar a função de “esponja” da paisagem, e puderam ver na prática os resultados. Outras áreas visitadas incluíram a Mata dos Bispos e diversas zonas sob gestão da SPEA, mostrando intervenções de restauro ecológico em turfeiras de altitude, fundamentais para retenção de água e mitigação de riscos naturais.

“A dedicação, a criatividade, o otimismo e a abordagem prática da SPEA no desenvolvimento das paisagens naturais dos Açores em circunstâncias desafiadoras, foram uma grande inspiração para mim. Durante a visita de campo, percebi que é preciso ter a liberdade de experimentar e explorar Soluções Baseadas na Natureza no terreno, aprendendo na prática. Colocar em prática as ideias teóricas e os relatórios em prática, dá muita energia”, destacou Jos de Bijll, diretor da Bureau Stroming.

Raul Paat, da Universidade de Tartu, salientou: “as condições de trabalho são muito difíceis, por isso é incrível ver que mesmo nessas condições foi possível realizar restauro com custos relativamente razoáveis. Além disso, o plantio de plantas individuais é algo que vi pela primeira vez. Estou ansioso para ver quanto tempo levará para o local se regenerar completamente”.

A eficácia das intervenções ficou clara para Claire McCamphill, da Wetlands International: “Fato incrível! A restauração da turfeira atrasou o pico das cheias em 20 horas. Essas medidas funcionam. Agora precisamos começar a vê-las como infraestruturas críticas e financiá-las”.

Para Ute Susanne Kaden, do Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ), “Foi realmente impressionante ver o trabalho no local, em vez de apenas em slides. A escala do esforço e a criatividade por trás das abordagens, juntamente com a persistência apesar dos contratempos, foram realmente admiráveis”.

Os especialistas destacaram ainda a importância da comunicação e sensibilização pública, reforçando que o trabalho da SPEA é um exemplo inspirador de inovação, criatividade e integração de soluções de conservação, com potencial para influenciar políticas públicas e projetos de adaptação às alterações climáticas em toda a Europa.


Fotos: 
Tarso Costa
Edgar Karofeld
Philip Meier
Carla Stoyanova
Diana Fernandes

Inscrições para o Atlas do Priolo encerram a 6 de abril

O prazo de inscrições para o V Atlas do Priolo aproxima-se do fim, encerrando já no próximo dia 6 de abril. A iniciativa, que decorrerá entre 22 e 26 de junho de 2026, nos concelhos do Nordeste e da Povoação, convida voluntários a participar neste importante projeto de monitorização que pretende novamente contar todos os priolos do mundo e promover a educação e a literacia ambiental.


Organizado pela SPEA, o Atlas do Priolo é um projeto de ciência cidadã realizado desde 2008, com o objetivo de atualizar a estimativa populacional do priolo, acompanhar a sua evolução e analisar a sua distribuição. Através da participação de cerca de 50 voluntários, será possível obter uma verdadeira “fotografia” da população mundial desta espécie, cuja ocorrência está limitada a uma pequena área da ilha de São Miguel.

Foto: Ruben Coelho

Para garantir a qualidade dos dados recolhidos, os participantes terão acesso a formação teórica e prática antes da contagem, permitindo a participação de pessoas com ou sem experiência prévia em observação de aves. A organização assegura o alojamento, em regime de acantonamento, nas salas da Escola Primária do Nordeste cedidas para a realização do Atlas, bem como o transporte e alimentação durante o evento, reforçando o convite a todos os interessados em contribuir ativamente para a conservação de uma das espécies mais emblemáticas dos Açores.

Participantes IV Atlas do Priolo 2022

Participar no Atlas do Priolo é mais do que contar uma ave — é contribuir ativamente para a proteção da floresta laurissilva e garantir um futuro para uma das espécies mais emblemáticas dos Açores.  

Inscreva-se AQUI!

quinta-feira, 26 de março de 2026

Do campo ao viveiro: a recolha de sementes de Tamujo

Antes de chegarem aos viveiros da SPEA Açores, muitas das plantas que produzimos começam a sua viagem bem longe daqui. É no campo, em contacto direto com a natureza, que damos o primeiro passo: a recolha de sementes. A produção de plantas endémicas no viveiro não começa nas instalações, mas sim no campo. Para conseguir produzir novas plantas, a equipa da SPEA desloca-se a zonas da Serra da Tronqueira onde encontramos exemplares adultos, em bom estado de saúde e, claro, com frutos.

A recolha anual de sementes começa cedo, com a nossa espécie nativa mais precoce: o tamujo ou Myrsine retusa. Este arbusto é dióico, ou seja, apresenta indivíduos masculinos e femininos, que se distinguem entre si pela cor das flores: roxas no primeiro caso e brancas no segundo. Se as flores femininas forem polinizadas por exemplares masculinos em floração, os frutos desenvolvem-se apenas nos indivíduos femininos.
 
Tamujo em frutificação.@Lucia Hevia

O momento de recolha é importante: procuramos frutos bem maduros, já com coloração roxa, o que aumenta a probabilidade de obter sementes viáveis. Não sendo muito abundantes, procuramos cuidadosamente entre a vegetação para recolher as sementes — embora não todas —, deixando sempre algumas em cada indivíduo para favorecer a regeneração natural.


Após a recolha, procedemos à extração da semente dos frutos. Os frutos de tamujo são carnosos, globosos e de pequeno tamanho (4–5 mm); inicialmente de cor branco-creme, tornam-se roxos quando amadurecem. A remoção da polpa é um passo importante, pois ajuda a evitar o desenvolvimento de fungos e pode melhorar a germinação.
Sementes de tamujo.@Lucia Hevia


Já no laboratório, removemos a polpa para ficarmos com a única semente que cada fruto contém. Posteriormente, deixamo-la secar e, ao fim de algumas semanas, armazenamo-la, registando sempre a quantidade e a data de recolha.
Tratamento de sementes .@Lucia Hevia

Para além do seu interesse na produção em viveiro, os frutos de tamujo desempenham também um papel importante no ecossistema, em especial a floresta Laurissilva, servindo de alimento a diversas aves, que contribuem para a dispersão natural das sementes. Por isso, uma recolha responsável é fundamental para garantir a conservação da espécie e o equilíbrio destes habitats.

quinta-feira, 19 de março de 2026

SPEA presente no XIV Congresso Internacional FAUNA de 2026

A SPEA participou no XIV Congresso Internacional FAUNA de 2026, que decorreu de 13 a 15 de março em formato online, com a apresentação de um poster científico sobre o trabalho de triagem e salvamento realizado pela SPEA, durante as brigadas do SOS Cagarro em Vila Franca do Campo.

Foto: Beatriz Martins

Este poster pretendeu divulgar resultados preliminares da metodologia de triagem veterinária que tem vindo a aplicar desde 2024 nas brigadas de resgate de cagarros em Vila Franca do Campo, São Miguel, envolvendo voluntários, biólogos e veterinários. Esta metodologia tem permitido realizar procedimentos básicos de primeiros socorros aos cagarros resgatados no local, melhorar a ação no terreno e a aquisição de novo conhecimento sobre a espécie e as suas ameaças face à poluição luminosa.

Este trabalho desenvolveu-se no âmbito da Campanha SOS Cagarro coordenada pela Direção Regional de Políticas Marítimas, com o apoio do Parque Natural da Ilha de São Miguel, Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, Marina de Vila Franca do Campo, Lotaçor, Clube Naval de Vila Franca do Campo, Azores Whale Watching Terra Azul, Programa European Solidarity Corps e todos os voluntários que colaboraram nas brigadas de resgate.

Poster apresentado no congresso


Trabalho continua para proteger as noites da ilha Graciosa

No âmbito do projeto LIFE Natura@night, a nossa equipa deslocou-se à ilha Graciosa para substituir fotómetros, equipamentos que nos ajudam a conhecer melhor o impacto da poluição luminosa nos nossos céus noturnos.



Este trabalho é especialmente importante numa zona de grande valor para as aves marinhas, em particular para o nosso painho-de-Monteiro. Ao recolhermos estes dados, conseguimos compreender melhor como a luz artificial afeta a biodiversidade noturna e apoiar soluções mais amigas da natureza.

Proteger a noite é também proteger a vida que depende dela.

Saiba mais em https://naturaatnight.spea.pt/


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Conheça os novos estagiários da SPEA Açores

A SPEA Açores dá as boas vindas a dois novos estagiários: Sonja Kiefer e Cristiano Medeiros estarão na SPEA pelos próximos 3 a 5 meses, apoiando nos trabalhos nos viveiros de produção de plantas, monitorizações, restauro de habitat Educação Ambiental no Centro Ambiental do Priolo.

Sonja Kiefer, é natural da Alemanha e estudou ciências ambientais, conservação da natureza e sustentabilidade em Freiburg e Hildesheim. Visitou os Açores há dois anos, tendo ficado "fascinada pela sua natureza, paisagem e vida selvagem". 

Sonja procurou um estágio que lhe permitisse integrar o seu amor pela natureza e interesse pela avifauna, de forma a obter uma compreensão mais profunda do ambiente natural único da Região. Para além disso, poderá trabalhar na área de Educação Ambiental no Centro Ambiental do Priolo, já que considera que "a sensibilização e a educação do público são essenciais para o sucesso da conservação da natureza".

O Cristiano Medeiros, tem 17 anos e frequenta o curso profissional de Técnico de Recursos Florestais e Ambientais, na Escola Profissional do Nordeste. É natural da Lomba da Fazenda, 

O Cristiano refere que "sempre tive um grande interesse pela área ambiental e florestal, o que me levou a escolher este curso e a procurar uma experiência de estágio nesta área". Por isso escolheu estagiar com a SPEA já que considera que "o trabalho desenvolvido por esta entidade vai ao encontro dos meus interesses e objetivos profissionais".

Irá desenvolver trabalhos nos viveiros de produção de plantas, monitorizações e participar e ajudar nos trabalhos de restauro de habitats desenvolvidos pela SPEA.

A SPEA dá-lhes as boas vindas e espera que os próximos meses sejam muito enriquecedores!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Restaurar a turfeira para garantir o nosso futuro

A SPEA assinalou, no dia 2 de fevereiro, o Dia Mundial das Zonas Húmidas, relembrando a importância destes ecossistemas vitais para o clima, a água e a biodiversidade. As zonas húmidas são aliadas silenciosas do território, pois acumulam água, armazenam carbono e reduzem riscos, mas estão entre os ecossistemas mais ameaçados pelas pressões humanas, razão pela qual a SPEA, há mais de 20 anos, desenvolve trabalho de restauro ecológico em diferentes habitats, incluindo zonas húmidas, com especial destaque para a recuperação de linhas de água e turfeiras no Planalto dos Graminhais em São Miguel, Açores.

Foto: Tarso Costa

As zonas húmidas desempenham um papel crucial em serviços de ecossistema essenciais contribuindo para mitigar as alterações climáticas; ajudando a manter a disponibilidade hídrica ao longo do ano; redução do risco de cheias, e funcionando como refúgio de biodiversidade, suportando espécies e comunidades altamente especializadas. Apesar do seu enorme valor ecológico e social, estes ecossistemas são particularmente vulneráveis a drenagens, alterações do uso do solo e introdução de espécies exóticas, ameaças que degradam rapidamente a sua capacidade de funcionar como “esponjas naturais” de proteção do território.

O trabalho da SPEA no restauro da turfeira do Planalto dos Graminhais, em São Miguel, começou em 2009 com o LIFE Laurissilva (2009–2013), foi reforçado a partir de 2021 com o LIFE IP Azores Natura e, atualmente, decorre no âmbito do SpongeBoost, um projeto europeu de investigação e inovação colaborativa que inclui os Graminhais como um dos sete estudos de caso na Europa, visando avaliar os efeitos do restauro já realizado e testar soluções baseadas na natureza com potencial de replicação noutras turfeiras europeias.

Foto: Filipe Figueiredo

“Mais de uma década após as primeiras intervenções, os resultados do restauro da turfeira dos Graminhais já são visíveis. Tanto através de imagens de satélite como na monitorização da comunidade vegetal, que evidenciam a regeneração das espécies nativas, incluindo o musgão (Sphagnum spp.). Estas são as verdadeiras esponjas naturais que nos protegem em silêncio” Segundo Tarso Costa, Técnico da SPEA.

Foto: Tarso Costa

A SPEA mantém na turfeira do Planalto dos Graminhais, há mais de quatro anos, um sistema de monitorização hidrológica com sensores que medem precipitação, água armazenada e o caudal da Ribeira da Achada, recolhendo dados para compreender como a turfeira responde aos eventos extremos de chuva e esta informação já deu origem a uma dissertação de mestrado (RWTH Aachen University), que através de modelação hidrológica demonstrou que o restauro permite reter mais água, libertá-la de forma mais gradual e reduzir o risco de cheias a jusante, reforçando a adaptação às alterações climáticas.

“Após anos a monitorizar o funcionamento das turfeiras, já temos dados científicos que reforçam a importância da turfeira na redução dos riscos de cheias e que nos dizem as turfeiras são verdadeiras “esponjas” da paisagem, e importantes reservatórios de carbono e água, essenciais para enfrentar um clima cada vez mais instável. “refere Tarso Costa.

Foto: Yasmin Redolosis

Neste Dia Mundial das Zonas Húmidas, a SPEA sublinha a importância de avaliar cientificamente os efeitos do restauro ecológico, reforçar a colaboração entre instituições nacionais e internacionais e investir em engenharia natural para recuperar áreas degradadas.

O restauro das zonas húmidas beneficia não apenas a biodiversidade, mas também as pessoas, ao contribuir para a segurança hídrica, a redução de riscos naturais e a mitigação das alterações climáticas. Proteger e recuperar estes ecossistemas é investir num futuro mais resiliente para todos.