quarta-feira, 27 de maio de 2026

SPEA leva o trabalho dos Açores ao Fórum Internacional MARLICE

A SPEA participou no Fórum Internacional MARLICE 2026, que decorreu de 19 a 21 de maio, em Puerto de la Cruz, Tenerife, levando ao encontro o trabalho que está a desenvolver nos Açores no âmbito do projeto CircularOcean.

Este é um dos principais espaços internacionais dedicados ao debate sobre lixo marinho e economia circular. Ao longo de três dias, o fórum reuniu entidades públicas, investigadores, empresas, organizações da sociedade civil e projetos ligados à conservação marinha, criando um espaço de partilha de conhecimento, boas práticas e soluções para reduzir a quantidade e o impacto dos resíduos que chegam ao mar.

Para a SPEA, esta participação foi uma oportunidade importante para mostrar que, nos Açores, a prevenção do lixo marinho começa muito antes de o resíduo chegar ao oceano. Começa nas ruas, nas ribeiras, nos portos, nas zonas balneares, nas escolas e nas escolhas diárias de cada pessoa.

Apresentação SPEA Açores no Fórum Marlice @Azucena de la Cruz

No âmbito do CircularOcean, a SPEA tem vindo a desenvolver várias ações de sensibilização, educação ambiental, monitorização e envolvimento comunitário em São Miguel. O trabalho apresentado no MARLICE destacou uma abordagem prática e próxima das comunidades: transformar preocupação em ação, recolher dados para apoiar decisões e envolver escolas, voluntários, municípios e setores ligados ao mar na procura de soluções circulares.

Entre as ações já desenvolvidas, destacam-se as limpezas costeiras, a monitorização dos resíduos recolhidos, os inquéritos e ferramentas de participação pública em zonas balneares, as contagens de utilizadores das praias e a produção de informação de apoio aos municípios. Este trabalho permite conhecer melhor a origem, quantidade e tipo de resíduos encontrados, contribuindo para medidas mais eficazes de prevenção e gestão.

Limpeza de praia na Povoação @Ana Mendonça

Um dos focos principais tem sido também a problemática das beatas de cigarro, um resíduo pequeno, mas com grande impacto. Em apenas 14 ações de limpeza em São Miguel, a SPEA recolheu mais de 6 000 beatas de cigarro, com o envolvimento de perto de 300 voluntários. Estes números mostram que muitos resíduos que acabam no mar começam por ser descartados em terra, muitas vezes perto da costa, sendo depois transportados pelo vento, pela chuva ou pelas linhas de água.

Beatas de cigarro no chão . @José Sena Golão/Lusa

A campanha “Oceanos sem Fumo” e a instalação de cinzeiros CircularOcean em zonas costeiras pretendem responder a este problema através da prevenção, da recolha seletiva e da sensibilização da população. A mensagem é simples: uma beata no chão não desaparece. Pode transformar-se em microplásticos, libertar substâncias tóxicas e acabar no oceano.

Cartaz da Campanha Oceano Sem Fumo

O trabalho com as escolas tem sido outro pilar essencial. Através de atividades educativas, desafios de cidadania ativa e iniciativas como os Eco-Guardiões, a SPEA procura envolver crianças e jovens na proteção dos oceanos. A prevenção começa onde se constroem hábitos, e as escolas são espaços fundamentais para despertar pensamento crítico, criatividade e vontade de agir.

Trabalho no âmbito do Eco Guardioes 2025/2026 da EBIdos Ginetes

Trabalho no âmbito do Eco Guardioes 2025/2026 do ATL da Lomba do Botão

A participação no MARLICE permitiu ainda reforçar a importância da cooperação entre regiões insulares. Açores, Madeira e Canárias enfrentam desafios comuns: a distância, a dependência do mar, a pressão sobre zonas costeiras e a chegada de resíduos transportados por correntes oceânicas. Mas partilham também uma enorme capacidade de inovação, mobilização comunitária e construção de soluções adaptadas aos territórios.

Ao levar a experiência dos Açores a Tenerife, a SPEA contribuiu para mostrar que o combate ao lixo marinho exige ciência, educação, participação pública e ação no terreno. Mais do que retirar resíduos das praias, é preciso evitar que cheguem ao mar, valorizar materiais sempre que possível e transformar os resíduos em ponto de partida para novas formas de pensar a economia circular.

Saiba mais sobre o projeto CircularOcean em https://spea.pt/projetos/circularocean/ e acompanhe o trabalho do projeto em https://circularoceanproject.com/ 

Veja  o vídeo resumo do Forum 


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A SPEA colabora no projeto LAURIMEL

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) está a colaborar no projeto LAURIMEL, uma iniciativa científica coordenada pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), em parceria com o Apiário Margaridas, a Universidade de Cardiff (Reino Unido), a Universidade Positivo e as Faculdades Pequeno Príncipe (ambas do Brasil). O projeto pretende investigar o potencial do mel produzido em áreas de floresta Laurissilva dos Açores, estudando de que forma a flora endémica, os solos vulcânicos e o microbioma das abelhas podem influenciar as propriedades biológicas e medicinais deste mel produzido em ecossistemas da Laurisilva.


Foto: Carolina Ferráz

Durante as últimas semanas, a equipa do projeto realizou a instalação de nove colmeias em três zonas diferentes da Serra da Tronqueira (São Miguel, Açores). Esta fase inicial representa um passo fundamental para compreender como os habitats de Laurissilva podem influenciar a composição do mel e a saúde das colónias de abelhas. 

Foto: Yasmin Redolosis 

Foto: Lucía Hevia López

Além da instalação das colmeias, foram também recolhidas amostras de solo, folhas e abelhas provenientes de cada colmeia em cada uma das áreas de estudo. Estas amostras serão posteriormente analisadas através de diferentes técnicas laboratoriais, com o objetivo de estudar características microbiológicas, moleculares e físico-químicas associadas ao mel neste ecossistema de Laurissilva.


Fotos: Yasmin Redolosis

Para mais informações sobre o projeto LAURIMEL por favor consulte: https://trnexus.org/laurimel ou  https://www.ciimar.up.pt/projects/laurimel/


O trabalho invisível por detrás do Atlas do Priolo

Uma ave, mais de 50 voluntários, uma manhã e uma fotografia instantânea da sua população!

É esta a premissa do Atlas do Priolo, um dos mais ambiciosos exercícios de monitorização de aves realizados nos Açores. Numa única manhã, dezenas de voluntários percorrem mais de 300 pontos de observação na parte Este da ilha de São Miguel para obter uma “fotografia instantânea” da população do Priolo. Como a SPEA tem divulgado ao longo das várias edições do Atlas do Priolo, esta simultaneidade é fundamental para garantir dados rigorosos sobre a distribuição da espécie e para acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.


Entretanto, este trabalho começa vários meses antes do dia do Atlas e existe uma tarefa fundamental que é a marcação dos pontos no terreno. Para que cada voluntário consiga encontrar corretamente os seus pontos de observação, é necessário marcar no terreno 307 locais com elevada precisão. Este trabalho é realizado pela equipa da SPEA em áreas remotas e de difícil acesso, recorrendo a veículos todo-o-terreno, GPS, percursos a pé e spray biodegradável para fazer marcações discretas.

Depois da componente de campo, toda a informação é integrada em sistemas de informação geográfica (SIG), permitindo produzir mapas, percursos e ficheiros digitais que serão utilizados pelos voluntários no terreno durante a realização do censo. Esta preparação é essencial não só para garantir a qualidade científica do censo, mas também para facilitar a navegação e aumentar a segurança dos participantes.

A organização do Atlas do Priolo envolve uma complexa preparação logística e técnica que muitas vezes permanece invisível. No entanto, é precisamente este trabalho de bastidores que torna possível realizar, numa única manhã, um censo coordenado em mais de 300 pontos e continuar a acompanhar a conservação de uma das aves mais emblemáticas dos Açores.

Relembramos que este ano realizaremos a quinta edição do Atlas do Priolo, entre os dias 22 e 26 de junho. A equipa da SPEA já se encontra no terreno, a percorrer montanhas, vales e florestas do habitat do Priolo para garantir que este grande projeto de ciência cidadã possa acontecer com rigor, segurança e sucesso.


SPEA Açores recebe novos estagiários

No seguimento dos protocolos estabelecidos com escolas profissionais espanholas, a SPEA Açores recebeu dois novos estagiários, que durante os próximos meses irão realizar o seu estágio profissional, contribuindo para os trabalhos realizados para a recuperação do habitat do priolo: a floresta Laurissilva.

Borja Guerra é estudante no IES El Escorial, onde frequenta uma qualificação profissional de nível superior em silvicultura e gestão de recursos naturais. A opção de focar os estudos nesta área deve-se "ao meu grande interesse pelo ambiente e pela sua proteção", referiu o mesmo.

O estágio na SPEA, tem como objetivo "adquirir experiência prática em trabalho de campo, aprofundar os meus conhecimentos sobre biodiversidade e conservação e aprender com os profissionais que fazem parte da organização", referiu Borja.

Já Ibon Blazquez, veio para os Açores através da bolsa Global Training do Governo Basco, que lhe permitirá estagiar com a SPEA durante os próximos seis meses.

Tem formação Profissional Superior em Gestão Florestal, com experiências profissionais subsequentes  relacionadas com a área de atuação da organização. Afirma que " os meus interesses pessoais contribuem com competências e aptidões valiosas, como o anilhamento de aves e o trabalho voluntário em diversos centros de proteção animal".

A SPEA dá-vos as boas vindas e esperemos que os vossos estágios vos tragam conhecimentos e satisfação profissional.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Trabalho da SPEA Açores inspira especialistas europeus em conservação

O trabalho da SPEA nos Açores tem atraído atenção internacional como exemplo a seguir em soluções de conservação e restauro ecológico. Em março, a associação recebeu a reunião anual presencial do projeto europeu SpongeBoost, reunindo especialistas de diversos países para uma semana de workshops e visitas de campo, onde puderam conhecer de perto as práticas inovadoras da SPEA.



No Planalto dos Graminhais, os especialistas aprenderam como a SPEA implementou medidas para reforçar a função de “esponja” da paisagem, e puderam ver na prática os resultados. Outras áreas visitadas incluíram a Mata dos Bispos e diversas zonas sob gestão da SPEA, mostrando intervenções de restauro ecológico em turfeiras de altitude, fundamentais para retenção de água e mitigação de riscos naturais.

“A dedicação, a criatividade, o otimismo e a abordagem prática da SPEA no desenvolvimento das paisagens naturais dos Açores em circunstâncias desafiadoras, foram uma grande inspiração para mim. Durante a visita de campo, percebi que é preciso ter a liberdade de experimentar e explorar Soluções Baseadas na Natureza no terreno, aprendendo na prática. Colocar em prática as ideias teóricas e os relatórios em prática, dá muita energia”, destacou Jos de Bijll, diretor da Bureau Stroming.

Raul Paat, da Universidade de Tartu, salientou: “as condições de trabalho são muito difíceis, por isso é incrível ver que mesmo nessas condições foi possível realizar restauro com custos relativamente razoáveis. Além disso, o plantio de plantas individuais é algo que vi pela primeira vez. Estou ansioso para ver quanto tempo levará para o local se regenerar completamente”.

A eficácia das intervenções ficou clara para Claire McCamphill, da Wetlands International: “Fato incrível! A restauração da turfeira atrasou o pico das cheias em 20 horas. Essas medidas funcionam. Agora precisamos começar a vê-las como infraestruturas críticas e financiá-las”.

Para Ute Susanne Kaden, do Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ), “Foi realmente impressionante ver o trabalho no local, em vez de apenas em slides. A escala do esforço e a criatividade por trás das abordagens, juntamente com a persistência apesar dos contratempos, foram realmente admiráveis”.

Os especialistas destacaram ainda a importância da comunicação e sensibilização pública, reforçando que o trabalho da SPEA é um exemplo inspirador de inovação, criatividade e integração de soluções de conservação, com potencial para influenciar políticas públicas e projetos de adaptação às alterações climáticas em toda a Europa.


Fotos: 
Tarso Costa
Edgar Karofeld
Philip Meier
Carla Stoyanova
Diana Fernandes

Inscrições para o Atlas do Priolo encerram a 6 de abril

O prazo de inscrições para o V Atlas do Priolo aproxima-se do fim, encerrando já no próximo dia 6 de abril. A iniciativa, que decorrerá entre 22 e 26 de junho de 2026, nos concelhos do Nordeste e da Povoação, convida voluntários a participar neste importante projeto de monitorização que pretende novamente contar todos os priolos do mundo e promover a educação e a literacia ambiental.


Organizado pela SPEA, o Atlas do Priolo é um projeto de ciência cidadã realizado desde 2008, com o objetivo de atualizar a estimativa populacional do priolo, acompanhar a sua evolução e analisar a sua distribuição. Através da participação de cerca de 50 voluntários, será possível obter uma verdadeira “fotografia” da população mundial desta espécie, cuja ocorrência está limitada a uma pequena área da ilha de São Miguel.

Foto: Ruben Coelho

Para garantir a qualidade dos dados recolhidos, os participantes terão acesso a formação teórica e prática antes da contagem, permitindo a participação de pessoas com ou sem experiência prévia em observação de aves. A organização assegura o alojamento, em regime de acantonamento, nas salas da Escola Primária do Nordeste cedidas para a realização do Atlas, bem como o transporte e alimentação durante o evento, reforçando o convite a todos os interessados em contribuir ativamente para a conservação de uma das espécies mais emblemáticas dos Açores.

Participantes IV Atlas do Priolo 2022

Participar no Atlas do Priolo é mais do que contar uma ave — é contribuir ativamente para a proteção da floresta laurissilva e garantir um futuro para uma das espécies mais emblemáticas dos Açores.  

Inscreva-se AQUI!

quinta-feira, 26 de março de 2026

Do campo ao viveiro: a recolha de sementes de Tamujo

Antes de chegarem aos viveiros da SPEA Açores, muitas das plantas que produzimos começam a sua viagem bem longe daqui. É no campo, em contacto direto com a natureza, que damos o primeiro passo: a recolha de sementes. A produção de plantas endémicas no viveiro não começa nas instalações, mas sim no campo. Para conseguir produzir novas plantas, a equipa da SPEA desloca-se a zonas da Serra da Tronqueira onde encontramos exemplares adultos, em bom estado de saúde e, claro, com frutos.

A recolha anual de sementes começa cedo, com a nossa espécie nativa mais precoce: o tamujo ou Myrsine retusa. Este arbusto é dióico, ou seja, apresenta indivíduos masculinos e femininos, que se distinguem entre si pela cor das flores: roxas no primeiro caso e brancas no segundo. Se as flores femininas forem polinizadas por exemplares masculinos em floração, os frutos desenvolvem-se apenas nos indivíduos femininos.
 
Tamujo em frutificação.@Lucia Hevia

O momento de recolha é importante: procuramos frutos bem maduros, já com coloração roxa, o que aumenta a probabilidade de obter sementes viáveis. Não sendo muito abundantes, procuramos cuidadosamente entre a vegetação para recolher as sementes — embora não todas —, deixando sempre algumas em cada indivíduo para favorecer a regeneração natural.


Após a recolha, procedemos à extração da semente dos frutos. Os frutos de tamujo são carnosos, globosos e de pequeno tamanho (4–5 mm); inicialmente de cor branco-creme, tornam-se roxos quando amadurecem. A remoção da polpa é um passo importante, pois ajuda a evitar o desenvolvimento de fungos e pode melhorar a germinação.
Sementes de tamujo.@Lucia Hevia


Já no laboratório, removemos a polpa para ficarmos com a única semente que cada fruto contém. Posteriormente, deixamo-la secar e, ao fim de algumas semanas, armazenamo-la, registando sempre a quantidade e a data de recolha.
Tratamento de sementes .@Lucia Hevia

Para além do seu interesse na produção em viveiro, os frutos de tamujo desempenham também um papel importante no ecossistema, em especial a floresta Laurissilva, servindo de alimento a diversas aves, que contribuem para a dispersão natural das sementes. Por isso, uma recolha responsável é fundamental para garantir a conservação da espécie e o equilíbrio destes habitats.