terça-feira, 22 de novembro de 2016

Crianças e jovens entre plantas endémicas no Corvo

Na passada semana os alunos da Escola Básica e Secundária Mouzinho da Silveira e do Jardim de infância "Planeta Azul" fizeram nova visita ao estufim incorporado na escola. O estufim tem sido desde 2010 uma ferramenta fundamental para a recuperação de habitat nas áreas do projeto e também na ilha do Corvo, mais precisamente da Vila, uma vez que produz milhares de plantas endémicas que tem vindo a ser transplantadas para estas áreas, aumentando o número de espaços verdes e contribuindo para a recuperação de habitat da Reserva Biológica do Corvo e da Reserva Biológica de Altitude.




Os alunos puderam assim reavivar conhecimentos sobre as espécies aí produzidas, entre as quais o cedro do-mato Juniperus brevifolia, urze Erica azorica, uva-da-serra Vaccinium cylindraceum, sanguinho Frangula azorica, pau-branco Picconia azorica, faia-da-terra Myrica faia e vidália Azorina vidalii entre outras. 


Além de reavivar conhecimentos, os alunos repicaram urzes e plantaram algumas destas espécies nos espaços verdes da escola substituindo as que não haviam sobrevivido.



Continuamos a educar para preservar!

Paínho-da-Madeira volta ao Ilhéu de Vila Franca do Campo

Nos últimos dias uma equipa da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) confirmou a nidificação de painho-da-madeira no Ilhéu de Vila Franca do Campo no seguimento dos trabalhos que têm vindo a ser realizados nesse local para acompanhamento e conservação da colónia de aves marinhas aí existente.


O painho-da-madeira (Hydrobates castro) é uma pequena ave, de tamanho e cor semelhante a um melro (19-21cm) razão pela qual era conhecido como melro-da-baleia. Tem um comportamento marcadamente pelágico passando grande parte do seu ciclo de vida em mar alto, característica comum às espécies da família procellariidae a que pertence, das quais a espécie mais conhecida é o emblemático cagarro (Calonectris borealis). Apresenta uma distribuição alargada no Atlântico, distribuindo-se por todo o território português (arquipélagos das Berlengas, dos Açores e da Madeira). Nos Açores a sua nidificação está confirmada no ilhéu do Topo (ilha de S. Jorge), nos ilhéus do Carapacho e da Praia (ilha Graciosa) e no ilhéu da Vila (ilha de S. Maria). Embora haja suspeitas de nidificação na ilha das Flores e no Corvo, estas ainda estão por confirmar. Nestes locais, a sua identificação é complicada pela inacessibilidade dos locais em que nidificam e também pela presença de uma espécie aparentada, o painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi (a única ave marinha endémica dos Açores, não existindo em outro local do planeta), uma vez que em setembro/outubro podem sobrepor-se. No entanto, este ano a nidificação deste último foi confirmada nas Flores no âmbito do projeto LIFE EuroSAP, já no Corvo as suspeitas mantém-se, apesar das vocalizações ouvidas nos ilhéus da Ponta do Marco. Ambos os painhos nidificam em pequenas cavidades ou em fendas nas rochas em ilhas e ilhéus sem predadores introduzidos. A sua observação é difícil durante o dia, sobretudo a partir de costa, sendo mais fácil a sua deteção ao final do dia, quando regressam aos ninhos durante a noite.


Segundo Carlos Silva, assistente técnico da SPEA, “...há testemunhos de nidificação de painho-da-madeira no ilhéu de Vila Franca do Campo nos anos 90, mas suspeita-se que a presença de roedores no final do século XX tenha levado ao seu desaparecimento.”

Entre 2009 a 2012, o ilhéu de Vila Franca do Campo foi alvo da implementação de algumas das ações do projeto LIFE “Ilhas Santuário para as Aves Marinhas” (que decorreu também no Corvo) com o objetivo de estudar o impacto das espécies invasoras nas aves marinhas. O projeto foi coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, em parceria com o Governo Regional, a Câmara Municipal do Corvo, a Royal Society for the Protection of Birds, o Clube Naval de Vila Franca do Campo e a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo. Muitas foram as ações desenvolvidas para melhorar as condições de habitat das aves marinhas pelágicas, desde o controlo de cana e de outras espécies de plantas invasoras, plantação de plantas endémicas, instalação de ninhos artificiais para painhos-da-madeira e frulhos (Puffinus lherminieri), assim como, a monitorização da população de cagarro, escutas noturnas para detetar a presença destas aves e a monitorização de roedores.

Carlos Silva refere que “A erradicação de roedores do ilhéu, realizada pelo Parque Natural de São Miguel ainda antes do início do projeto, foi provavelmente o fator chave para o regresso do painho-da-madeira. Anualmente verifica-se a eventual presença de roedores 2 a 3 vezes por ano com um sistema de cubos de parafina não tóxico, porque o risco de reintrodução é elevado, não só pela oportunidade de terem “boleia” do intenso tráfego marítimo, bem como, por os ratos terem a capacidade de nadar uma distância até 2km… e o ilhéu de Vila Franca do Campo está apenas a cerca de 500 metros da orla costeira de São Miguel”.

A primeira deteção de painho-da-madeira no ilhéu de Vila Franca do Campo pelos técnicos da SPEA ocorreu em outubro de 2010 e nos anos seguintes a espécie foi detetada ocasionalmente, sendo provavelmente aves prospetoras em busca de novos locais de nidificação.

O técnico explicou que “...desde 2013 suspeitamos da elevada probabilidade de nidificação. Os painhos-da-madeira foram detetados durante toda a sua época de reprodução, que decorre de outubro a fevereiro. Durante o inverno de 2014 e 2015, foram investidos esforços na localização de ninhos nas encostas do ilhéu. Descemos com o auxílio de cordas todas as vertentes rochosas do ilhéu tentando localizar indícios e ninhos, buscas que se revelaram infrutíferas, pelo que optamos por recorrer a outra abordagem metodológica, através do método de marcação-recaptura com recurso a redes de anilhagem com o qual obtivemos sucesso a semana passada, uma vez que reuniram-se as condições para o teste desta abordagem, tendo sido capturados 7 indivíduos nos quais foi observada pelada de incubação (ausência de penas no ventre da ave, permitindo uma maior transferência de calor na incubação do ovo e indicando que a ave está a chocar o ovo), confirmando-se assim a nidificação. Esta característica só é evidente com a ave na mão...”.

Esta ação só foi possível com a colaboração do Clube Naval de Vila Franca do Campo e do Parque Natural de Ilha de São Miguel, e permitiu à equipa da SPEA comprovar a nidificação desta pequena ave, ainda que o número de aves capturado em duas noites de amostragem tenha sido reduzido, a pelada de incubação presente em todos os indivíduos encheu a equipa de satisfação “...as nossas suspeitas foram confirmadas e podemos afirmar que o painho-da-madeira regressou ao ilhéu, alargando assim a sua atual área de distribuição”.

Segundo a SPEA “O trabalho no ilhéu não pode ficar por aqui. Os próximos passos passam por efetuar a estimativa populacional para esta espécie e melhorar as condições de nidificação. Estas ações devem agora ser integradas no atual plano de conservação do ilhéu de Vila Franca do Campo”.

O painho-da-madeira está classificado como vulnerável no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal e segundo a Birdlife International, a tendência populacional da espécie encontra-se em declínio. Nos Açores, a sua população tem sido monitorizada no ilhéu da Vila e ilhéu da Praia pelo Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, em colaboração com os parques naturais. A espécie não tem sido alvo de ações diretas de conservação no entanto estão a decorrer diferentes ações de conservação (controlo/erradicação de plantas invasoras e erradicação de mamíferos invasores) para outras aves marinhas em diferentes ilhéus por parte de diferentes entidades (parques naturais e Universidade dos Açores), o painho-da-madeira acaba por beneficiar destas ações uma vez que partilha problemas e soluções com as restantes aves marinhas nidificantes nos Açores.


Este regresso ao Anel da Princesa é mais uma jóia a acrescentar ao potencial do ilhéu e das ações que aí tem sido desenvolvidas para recuperar este habitat tornando-o novamente mais adequado aos seus habitantes primordiais, conciliando desta forma o seu usufruto de forma sustentável, de modo, a desempenhar o papel de santuário para as aves marinhas que aí nidificam em ligação com a população que o visita.

Cria da Lua-de-mel no Corvo IV abandona ninho

O Penas abandonou o ninho na noite de 27 de outubro e partiu para iniciar a sua primeira grande aventura rumo a terras brasileiras. Esta foi a 4ª edição da Lua-de-mel no Corvo e contou mais uma vez com o apoio da MEO, da Câmara Municipal do Corvo e do Governo dos Açores. A 4ª edição foi visualizada mais de 13 000 vezes com 73% das visualizações a serem portuguesas e permitiu continuar a acompanhar em directo a nidificação de um casal de Cagarros Calonectris borealis. Foram várias as infelicidades, de recordar que este foi o 3º casal seguido este ano, uma vez que os dois primeiros não tiveram ovos viáveis, com o habitual casal a partir o ovo e o segundo casal a não conseguir fecundar o ovo, mas no fim, tudo corre bem quando acaba bem.


Fica ainda um agradecimento especial a todos os que acompanham diariamente a primeira fase desta cria. Para o ano se tudo correr como planeado teremos nova edição, até lá, resta-nos esperar que o som desta emblemática ave marinha volte a ecoar pelas noites açorianas.

XI Jornadas do Priolo comemoram Dia Mundial da Floresta Autóctone

A XI edição das Jornadas do Priolo teve lugar ontem dia 21 de novembro, no Centro Municipal de Atividades Culturais do Nordeste e este ano pretendeu não só promover a Biodiversidade junto dos mais novos, mas também comemorar o Dia Mundial da Floresta Autóctone. As jornadas tiveram o intuito de informar e aproximar a população escolar da Natureza dos Açores, o seu valor e a importância da sua conservação.

A edição deste ano das Jornadas do Priolo, à semelhança dos anos anteriores, foi organizada pela SPEA no âmbito do Projeto Life+ Terras do Priolo. Este evento contou com a participação da DRA (Direção Regional da Agricultura) e da DRRF (Direção Regional dos Recursos Florestais). Também foram realizadas algumas palestras sobre as ações desenvolvidas pelo projeto LIFE+ Terras do Priolo.

As Jornadas tiveram como objetivo fazer o enquadramento dos projetos de conservação, coordenados pela SPEA, a decorrer atualmente em São Miguel e comemorar o Dia da Floresta Autóctone, no âmbito da comunidade escolar, relembrando a importância da conservação das Florestas e problemáticas associadas. Para além disso pretendeu-se também dinamizar a partilha de conhecimentos entre entidades e alunos nas áreas técnicas da sustentabilidade e práticas agrícolas com maior impacto ambiental e potenciar o intercâmbio entre escolas e entidades educativas.



Uma vez mais, as Jornadas promoveram o intercâmbio entre escolas, com a participação de mais de uma centena de estudantes, do ensino profissionalizante e vocacional de vários pontos da ilha de São Miguel desde o Nordeste, Povoação, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo.  Este ano para além das palestras houve da parte da tarde uma visita guiada à Reserva Florestal dos Viveiros do Nordeste e ao Centro de Divulgação Florestal do Nordeste.

O nosso muito obrigado a todas as escolas e entidades presentes!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lua-de-mel no Corvo IV: chama-se Penas


A cria da 4ª edição da Lua-de-mel no Corvo já tem nome. Penas foi o nome escolhido pela maioria dos seguidores desta aventura. Assim, a Sónia Manso, da ilha do Pico receberá um guia de bolso das aves marinhas de Portugal, uma vez que foi ela a autora da sugestão. Não deixem de acompanhar os últimos momentos do/da Penas uma vez que desde o dia 21 de outubro à noite a cria aventura-se fora do ninho para experimentar as asas, até abandonar o ninho de vez, o que estará para breve, já que apresenta 352mm de asa e 890g de peso, ou seja, apresentado as biometrias da média dos juvenis salvos no SOS Cagarro.

Foto: Bárbara Ambros

Mais uma vez agradecemos aos que acompanharam mais este ciclo da mais emblemática ave marinha dos Açores.

Lembrem-se. Salvem um Cagarro. Façam um Amigo!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

SPEA - Açores efetua trabalhos de monitorização de populações de cagarro


A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves tem efetuado o “acompanhamento familiar” de colónias de cagarro (Calonectris borealis), desde a implementação do projeto LIFE “Ilhas Santuário para as Aves Marinhas”, em 2009.

O Cagarro é uma ave marinha pelágica que nidifica em fendas ou cavidades no solo e os Açores são o local de eleição para a nidificação de 75% da população mundial. A fêmea coloca um único ovo no final de maio, caso comum a todos os Procellariiformes, sem qualquer tipo de substituição do ovo em caso de fracasso. A eclosão ocorre no final de julho e os adultos deixam a cria sozinha durante o dia para procurar alimento regressando ao ninho à noite. Cerca de três meses depois, entre final de outubro e início de novembro, os juvenis abandonam os ninhos e iniciam o seu primeiro voo bem como preparam a sua primeira travessia oceânica rumo ao atlântico sul. Estas crias regressam aos açores quando atingem a maturidade sexual ao fim de 7 anos. Os ninhos são visitados regularmente com a ajuda de endoscópios para detetar a presença do casal, ovo e acompanhar o nascimento/crescimento da cria, desde o final de fevereiro, aquando da chegada desta ave emblemática aos Açores.

Nos últimos anos a SPEA tem efetuado o acompanhamento de várias colónias na ilha do Corvo e no ilhéu de Vila Franca do Campo (ilha de São Miguel) onde tem avaliado o sucesso reprodutor de cada colónia. Com cerca de 550km de distância entre cada local, o ciclo de vida do cagarro é idêntico à exceção das condições de nidificação (tipo de ninho e presença de predadores – gatos e ratos). O sucesso reprodutor de cada colónia é obtido pela relação entre o número de crias que sobrevivem e o número de posturas. No Corvo, o acompanhamento semanal de 200 ninhos determinou, em 2012, que os gatos e roedores são responsáveis pelo baixo sucesso reprodutor de cagarro (cerca de 39%).

No ilhéu de Vila Franca do Campo do Campo, onde não existem estes predadores, o sucesso reprodutor de cagarro tem sido muito mais elevado que na ilha do Corvo. No ano de 2015 e 2016 obtiveram-se valores de sucesso reprodutor respetivos de 72% e 63%. As crias dos ninhos monitorizadas são normalmente anilhadas e as biometrias são registadas (peso, dimensão da asa, bico, cabeça e tarso). Este ano, as crias tinham um peso médio abaixo do normal o que poderá explicar a diminuição de 9% no sucesso reprodutor comparativamente com o ano anterior. Várias crias não resistiram por deficiente desenvolvimento da massa corporal devido, provavelmente, a uma generalizada falta de alimento. No Corvo, aguardam-se os resultados do sucesso reprodutor mas os resultados preliminares não são satisfatórios devido à elevada predação registada. Em simultâneo, procedeu-se à avaliação de 27 ninhos de cagarro na IBA PT0079 Faial da Terra/Ponta do Arnel (IBA – sítio importante para as aves), na ilha de São Miguel, onde o sucesso reprodutor rondou os 38%. Aqui também se registaram elevadas taxas de predação.


A predação em crias de cagarro continua a ser uma ameaça presente em ilhas habitadas. Para além dessas ameaças, os juvenis enfrentam outros perigos, nomeadamente a poluição luminosa. Ao abandonar o ninho para realizar a migração transatlântica pela noite e com a pouca experiência de voo são atraídos pelas luzes artificiais (candeeiros públicos, iluminação pública, luzes de carro, etc.) acabando por colidir com estes. Para mitigar esta ameaça o Governo dos Açores promove desde 1995 a Campanha SOS Cagarro organizada em duas vertentes, Educação Ambiental e Conservação da Natureza entre 15 de outubro e 15 de novembro, envolvendo inúmeros parceiros e mobilizando milhares de pessoas.

O cagarro ADAM é o primeiro cagarro da SPEA a ser libertado no Nordeste. Este é um jovem macho de 720 gramas e que foi resgatado na noite de 20 de outubro. A ave foi anilhada, pesada e foram medidos os dados biométricos. O Adam foi libertado posteriormente junto do mar.A SPEA tem, nos últimos anos, colaborado ativamente no resgate, salvamento e libertação de juvenis de cagarro no Concelho do Nordeste e da Povoação e na ilha do Corvo, onde o primeiro juvenil foi salvo no dia 19 de outubro e pesava 890g e media 357mm de asa.

Colabore e participa nesta campanha,
Este ano salve um cagarro e faça um amigo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Jardim de Endémicas no Corvo

Hoje foi dia de colaborarmos com a Câmara Municipal do Corvo na requalificação do jardim municipal, nomeadamente na criação de um espaço só para endémicas, um "jardim de endémicas". As plantas que agora se espera que cresçam e encham de cor este espaço público são provenientes do estufim incorporado na Escola Básica e Secundária Mouzinho da Silveira e é uma das principais áreas de intervenção da Plano de Ação Pós-Projecto LIFE "Ilhas Santuário para as Aves Marinhas". Foram cerca de 150 as plantas aí colocadas, entre as quais a urze Erica azorica, a faia-da-terra Myrica faia, o pau-branco Picconia azorica, o sanguinho Frangula azorica, a uva-da-serra Vaccinium cylindraceum,  o bracel Festuca petraea e a vidália Azorina vidalii. Além da plantação destas foram ainda semeadas directamente não-me-esqueças Myosotis maritima  e mais vidália.

Foto: T.Pipa

                                                                                          Foto: Cassiano Proença

Esta é mais uma iniciativa da Câmara Municipal no sentido de requalificar os espaços verdes da Vila do Corvo, aproveitando a produção de espécies nativas que vimos realizando desde 2010 com o projecto e pós-projecto LIFE "Ilhas Santuário para as Aves Marinhas"e seguindo o mote do programa de produção de plantas nativas do Governo Regional, devolvendo aos açorianos o património natural que foi perdido.